dedicado à Luiza Vendrametto, minha madrinha muito amada
Muitos passos já deram os ciganos por este mundo, em vários lugares foram mal recebidos ou nem aceitos, em outros tornaram-se parte do folclore, mas para os ciganos todos os lugares ficaram dentro deles, pois tudo que acharam belo e útil, sem preconceito foram assimilando à sua forma de viver. Os mais velhos carregavam nos ombros esses tantos passos e por isso eram respeitados e sempre consultados antes de grandes decisões. Houve porém um dia em que um jovem chefe cigano arrependeu-se de não ter ouvido os mais velhos...
Muitos passos já deram os ciganos por este mundo, em vários lugares foram mal recebidos ou nem aceitos, em outros tornaram-se parte do folclore, mas para os ciganos todos os lugares ficaram dentro deles, pois tudo que acharam belo e útil, sem preconceito foram assimilando à sua forma de viver. Os mais velhos carregavam nos ombros esses tantos passos e por isso eram respeitados e sempre consultados antes de grandes decisões. Houve porém um dia em que um jovem chefe cigano arrependeu-se de não ter ouvido os mais velhos...
Foi numa terra de língua estranha que algumas famílias ciganas se desentenderam e resolveram sair de uma caravana para formarem outra, não havia forma de se fazerem entender até que os anciãos desistiram e viram que somente a vida lhes mostraria o melhor caminho, o mais velho desse grupo era ainda muito jovem, mas com mulher e filho se achava suficientemente experiente para liderar os seus em terras estranhas com pessoas de valores diferentes e costumes que, por vezes, poderia lhes ser perigoso. Assim foi, o pequeno grupo partiu orgulhoso, os outros se arrependeram da discussão e os mais velhos faziam suas orações e rituais para a proteção de todos.
O tempo passou e a nova caravana seguia seu caminho, mas coisas ruins começaram a acontecer, a primeira foi a morte de uma jovem no parto, pensou-se que daria tempo de chegar há uma vila, mas calcularam mal e a cigana deu à luz numa estrada empoeirada e distante, as mulheres eram jovens e não sabiam quais ervas dar à menina para ajudá-la, ela era muito frágil e deu ao marido um lindo menino, tristes continuaram; os alimentos começaram a faltar, o jovem chefe não negava festas à seu povo, mas nas festas consumiam muito vinho e víveres e nem sempre conseguiam vender nas cidades o suficiente para repor o que gastavam, já não tinham mais ouro e suas roupas estavam gastas demais, havia brigas por toda a parte, intrigas, ciúmes, o jovem chefe aos poucos sentia falta da sua antiga caravana, onde tudo era resolvido nos conselhos e os mais velhos falavam de uma forma que não conseguiam questionar, todos aceitavam e a união era muito maior que os problemas, ele bem que tentou conversar com todos, só reclamaram dele, também não sabiam as respostas, eram todos jovens, silenciaram e resignaram-se em seus arrependimentos, não cobraram mais de seu chefe o que também não tinham.
Porém, chegou a pior época de suas vidas, havia no caminho da caravana duas vias, uma era a entrada de uma vila que não conheciam e a outra bem longa levava a outra cidade, mesmo com provisões o chefe achou melhor buscarem alimentos e água, não notaram que na via que levava à vila não havia nenhuma flor ou planta e que mesmo fazendo calor, um vento frio soprava naquela direção. Na vila reinava uma estranha calma, pegaram água no poço e algumas das crianças beberam logo, correndo alegres para lá e para cá, havia poucas vendas ou comércios abertos, quando se aproximavam fechavam as portas, imaginando que fosse aquela comum ojeriza aos ciganos o chefe achou melhor partirem, uma velha aproximou-se dele e implorou em febres que fossem embora, pois a cidade estava amaldiçoada e uma praga estava matando a todos, no mesmo momento o jovem chefe deu ordem e todos foram para as carroças, quebrou todos os jarros com água e nem olhou para trás. Não contou nada aos outros para não preocupá-los.
Mesmo assim o pior aconteceu, as crianças adoeceram com febres terríveis, e algumas mães também, o desespero tomava conta da caravana, o jovem chefe não sabia mais o que fazer, os conhecimentos de todo o grupo esgotara-se, com o coração cheio de dor e o filho doente nos braços, o chefe acendeu uma fogueira e reuniu todo o grupo num campo à beira da estrada, disse-lhes em lágrimas que a única coisa que lhes restava era a fé, a fé que seus ancestrais os ensinara e os mantivera unidos, a fé que esqueceram e que agora precisavam para manter a vida, deram as mãos e seus pensamentos se elevaram com a força de seus corações além daquela noite imensa e escura, sentiram de repente uma suave brisa a passear por eles e o calor de muitas orações, ao abrirem os olhos viram uma senhora ajoelhada no meio da roda e um xale verde a envolvia, em suaves rodopios passava o xale em todos os doentes, uma dança forte e serena transformava o lugar, a lua cheia iluminou a noite e o coração de todos na caravana, a senhora pedia aos céus com sua dança a cura dos seus, o xale cobria de amor e segurança todos que ali estavam, o xale nas mãos da mulher tirava da terra a vitalidade para os doentes e com o ar purificava seus corpos, uma chuva fina saciava a sede de seus espíritos e ao fim da dança a mulher atirou o xale ao fogo transformando todo o mal que os afligia, uma grande chama surgiu e quando o clarão sumiu, a senhora também já havia partido, emocionados abraçaram-se, todos foram curados, da doença, das mágoas e do orgulho, agradeceram aos Deuses e aos antepassados, e a todos que pediram por eles naquele triste momento de suas vidas, choraram e sorriram, todos tinham uma certeza, era hora de voltar...
Numa certa época do ano caravanas ciganas de muitos lugares se encontravam para render homenagens à uma virgem negra que há muito os ajudava e de tanto os ciganos falarem nela, ela já começava a ser conhecida pelos não ciganos, desde que partira com sua pequena caravana o jovem chefe nunca mais havia ido à grande festa, mas ele sabia que sua avó ia todos os anos, na viagem pedia para que ela lá estivesse com saúde, pensou como fora orgulhoso e negara a si e aos seus os ensinamentos de uma pessoa tão bela e forte como sua avó, que esqueceu de pensar nos perigos a que todos estavam sujeitos e que ainda não estava pronto para ter a responsabilidade de tantas vidas em suas mãos, seus pensamentos foram interrompidos quando viu alguém passar de xale verde no meio da multidão, correu ao seu encontro, de joelhos pediu perdão e bençãos à sua avó, a senhorinha mal se continha de alegria, abraçava o neto que não parava de chorar, as caravanas se reencontraram e aquela foi a festa mais feliz que a virgem poderia ter lhes dado...
Os mais velhos ensinaram que o espírito do amor que os unia era maior que qualquer distância, que a experiência se tem vivendo e os caminhos são muitos para obtê-la, ter uma mão que nos ampare e nos ajude a ver o melhor caminho é como um infinito mar de ouro, e que não devemos nos arrepender do que vivemos, mas do que não aprendemos.
Dizem os ciganos, que os jovens são baús que devem se encher das moedas de ouro que são as palavras dos anciãos, esses baús um dia estarão tão cheios que deverão assim como os mais velhos distribuir tantas moedas quanto recebeu ou mais, pois não teria valia o ser humano envelhecer se não fosse a sabedoria.
Um dia o jovem tornou-se um grande chefe que soube ter paciência com a juventude e respeito aos mais velhos, que conservou suas tradições e ensinou que a união era sempre a melhor via, e que quando o caminho ficar escuro demais para seguir sozinho pedir ajuda é a melhor solução.
(direitos reservados) Sumaya Sarran



E ainda a bailar...



