quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Numa noite escura...

dedicado à Luiza Vendrametto, minha madrinha muito amada

Muitos passos já deram os ciganos por este mundo, em vários lugares foram mal recebidos ou nem aceitos, em outros tornaram-se parte do folclore, mas para os ciganos todos os lugares ficaram dentro deles, pois tudo que acharam belo e útil, sem preconceito foram assimilando à sua forma de viver. Os mais velhos carregavam nos ombros esses tantos passos e por isso eram respeitados e sempre consultados antes de grandes decisões. Houve porém um dia em que um jovem chefe cigano arrependeu-se de não ter ouvido os mais velhos...

Foi numa terra de língua estranha que algumas famílias ciganas se desentenderam e resolveram sair de uma caravana para formarem outra, não havia forma de se fazerem entender até que os anciãos desistiram e viram que somente a vida lhes mostraria o melhor caminho, o mais velho desse grupo era ainda muito jovem, mas com mulher e filho se achava suficientemente experiente para liderar os seus em terras estranhas com pessoas de valores diferentes e costumes que, por vezes, poderia lhes ser perigoso. Assim foi, o pequeno grupo partiu orgulhoso, os outros se arrependeram da discussão e os mais velhos faziam suas orações e rituais para a proteção de todos.

O tempo passou e a nova caravana seguia seu caminho, mas coisas ruins começaram a acontecer, a primeira foi a morte de uma jovem no parto, pensou-se que daria tempo de chegar há uma vila, mas calcularam mal e a cigana deu à luz numa estrada empoeirada e distante, as mulheres eram jovens e não sabiam quais ervas dar à menina para ajudá-la, ela era muito frágil e deu ao marido um lindo menino, tristes continuaram; os alimentos começaram a faltar, o jovem chefe não negava festas à seu povo, mas nas festas consumiam muito vinho e víveres e nem sempre conseguiam vender nas cidades o suficiente para repor o que gastavam, já não tinham mais ouro e suas roupas estavam gastas demais, havia brigas por toda a parte, intrigas, ciúmes, o jovem chefe aos poucos sentia falta da sua antiga caravana, onde tudo era resolvido nos conselhos e os mais velhos falavam de uma forma que não conseguiam questionar, todos aceitavam e a união era muito maior que os problemas, ele bem que tentou conversar com todos, só reclamaram dele, também não sabiam as respostas, eram todos jovens, silenciaram e resignaram-se em seus arrependimentos, não cobraram mais de seu chefe o que também não tinham.

Porém, chegou a pior época de suas vidas, havia no caminho da caravana duas vias, uma era a entrada de uma vila que não conheciam e a outra bem longa levava a outra cidade, mesmo com provisões o chefe achou melhor buscarem alimentos e água, não notaram que na via que levava à vila não havia nenhuma flor ou planta e que mesmo fazendo calor, um vento frio soprava naquela direção. Na vila reinava uma estranha calma, pegaram água no poço e algumas das crianças beberam logo, correndo alegres para lá e para cá, havia poucas vendas ou comércios abertos, quando se aproximavam fechavam as portas, imaginando que fosse aquela comum ojeriza aos ciganos o chefe achou melhor partirem, uma velha aproximou-se dele e implorou em febres que fossem embora, pois a cidade estava amaldiçoada e uma praga estava matando a todos, no mesmo momento o jovem chefe deu ordem e todos foram para as carroças, quebrou todos os jarros com água e nem olhou para trás. Não contou nada aos outros para não preocupá-los.

Mesmo assim o pior aconteceu, as crianças adoeceram com febres terríveis, e algumas mães também, o desespero tomava conta da caravana, o jovem chefe não sabia mais o que fazer, os conhecimentos de todo o grupo esgotara-se, com o coração cheio de dor e o filho doente nos braços, o chefe acendeu uma fogueira e reuniu todo o grupo num campo à beira da estrada, disse-lhes em lágrimas que a única coisa que lhes restava era a fé, a fé que seus ancestrais os ensinara e os mantivera unidos, a fé que esqueceram e que agora precisavam para manter a vida, deram as mãos e seus pensamentos se elevaram com a força de seus corações além daquela noite imensa e escura, sentiram de repente uma suave brisa a passear por eles e o calor de muitas orações, ao abrirem os olhos viram uma senhora ajoelhada no meio da roda e um xale verde a envolvia, em suaves rodopios passava o xale em todos os doentes, uma dança forte e serena transformava o lugar, a lua cheia iluminou a noite e o coração de todos na caravana, a senhora pedia aos céus com sua dança a cura dos seus, o xale cobria de amor e segurança todos que ali estavam, o xale nas mãos da mulher tirava da terra a vitalidade para os doentes e com o ar purificava seus corpos, uma chuva fina saciava a sede de seus espíritos e ao fim da dança a mulher atirou o xale ao fogo transformando todo o mal que os afligia, uma grande chama surgiu e quando o clarão sumiu, a senhora também já havia partido, emocionados abraçaram-se, todos foram curados, da doença, das mágoas e do orgulho, agradeceram aos Deuses e aos antepassados, e a todos que pediram por eles naquele triste momento de suas vidas, choraram e sorriram, todos tinham uma certeza, era hora de voltar...

Numa certa época do ano caravanas ciganas de muitos lugares se encontravam para render homenagens à uma virgem negra que há muito os ajudava e de tanto os ciganos falarem nela, ela já começava a ser conhecida pelos não ciganos, desde que partira com sua pequena caravana o jovem chefe nunca mais havia ido à grande festa, mas ele sabia que sua avó ia todos os anos, na viagem pedia para que ela lá estivesse com saúde, pensou como fora orgulhoso e negara a si e aos seus os ensinamentos de uma pessoa tão bela e forte como sua avó, que esqueceu de pensar nos perigos a que todos estavam sujeitos e que ainda não estava pronto para ter a responsabilidade de tantas vidas em suas mãos, seus pensamentos foram interrompidos quando viu alguém passar de xale verde no meio da multidão, correu ao seu encontro, de joelhos pediu perdão e bençãos à sua avó, a senhorinha mal se continha de alegria, abraçava o neto que não parava de chorar, as caravanas se reencontraram e aquela foi a festa mais feliz que a virgem poderia ter lhes dado...

Os mais velhos ensinaram que o espírito do amor que os unia era maior que qualquer distância, que a experiência se tem vivendo e os caminhos são muitos para obtê-la, ter uma mão que nos ampare e nos ajude a ver o melhor caminho é como um infinito mar de ouro, e que não devemos nos arrepender do que vivemos, mas do que não aprendemos.

Dizem os ciganos, que os jovens são baús que devem se encher das moedas de ouro que são as palavras dos anciãos, esses baús um dia estarão tão cheios que deverão assim como os mais velhos distribuir tantas moedas quanto recebeu ou mais, pois não teria valia o ser humano envelhecer se não fosse a sabedoria.

Um dia o jovem tornou-se um grande chefe que soube ter paciência com a juventude e respeito aos mais velhos, que conservou suas tradições e ensinou que a união era sempre a melhor via, e que quando o caminho ficar escuro demais para seguir sozinho pedir ajuda é a melhor solução.

(direitos reservados) Sumaya Sarran

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Para siempre a bailar !!!

A Dança Cigana é sagrada, comemora a comunhão com a natureza e todo o universo do qual fazemos parte. Em sua infinita magia, a dança nos transporta para além dos tempos e somos sempre únicos....

El fuego!

Os ciganos são enamorados do Fogo,
de sua força e beleza,
da sua magia restauradora,
de suas chamas bailaoras,
das salamandras encantadas,
do calor que acolhe, queima, ensina e protege...
Nas chamas desse Elemento ancestral a sorte, a cura,
a iluminação para novos passos num velho mundo...

Impressões...

Um momento em que a expressão do cantaor e o mover da saia da gitana, na mesma harmonia encantam e emocionam, são um, na sagrada magia da dança e da música que atravessa fronteiras e tempos para em um instante, serem eternos...


Fuerza Gitana!

Com a cabeça levantada demonstra o poder de sua raça,
o bater dos pés na terra clama a força desse elemento para bailar,
as mãos para o alto pedem licença para exaltar a natureza,
com a força feminina entrega-se ao ritual da dança
e banha de beleza e mistério o espetáculo cigano.
O barulho das moedas e pedras também tocam música no ritmo do seu rodopiar,
as palmas e ralhos envolvem e alimentam a força da cigana,
que na sua oração saúda os presentes na comunhão do sagrado e da alegria.

O mistério do véu...

Eis que baila, envolta em mistério,
e envolvido sinto-me no rodamoinho do teu véu,
na tristeza de não ser uma estrela no teu céu,
perdido nos tantos passos seus,
sabendo que a ti pouco importa os meus...
Como podes gitana ser tão bela,
não me notar quando lhe jogo a rosa da janela,
quando em meus olhos lhe rogo algo
e tu me apenas me sorri um enigma;
a rosa vai aos cabelos e o que me resta
é sonhar com a mulher, deusa e menina
que o teu véu revela e esconde
com encanto e tormenta
para o medo e o amor que me alimenta."
(para minha amada irmã Evelyn)

Música y baile...

A música cigana, tem tantos ritmos quanto corações para encantar,
é tão simples e complexa como nossas vidas,
dá razão aos nossos passos e movimentos, e em certo momento,
confundem-se num só momento único e irrepetível.
Como dizia meu pai: sem a música não há dança e sem dança não há porque ter música!


A Magia da Dança dos Lenços!

Unindo forças, desejos, alegrias, esperanças, agradecimentos, a dança dos lenços manifesta toda a força feminina da cura, da estreita ligação com os ciclos da natureza, do sempre auto renovar-se no eterno vai e vem da vida, é bela pela união, pela harmonia necessária para a sua execução.
A dança dos lenços é uma comemoração a vida, que nos ensina no seu ritmo como dançar e dar os passos certos rumo ao contentamento e a nossas realizações em todos os sentidos.


Los cantaores!

A música cigana é magnífica,
cheia de misturas e elementos das mais diversas culturas,
instrumentos esquecidos e uma combinação de sons que
somente os músicos ciganos conseguem compor;
nos fazendo vibrar a cada acorde ou rasgueio,
do choro do violino ao ta-ka-ta do derbak,
do tilintar do pandeiro ao repicar das castanholas,
do zunir dos snujs e guizos ao simples bater das palmas
que em ritmos mágicos nos encantam,
enlouquecem de paixão e renovam nossas forças e fé,
é no soar de suas vozes e instrumentos que a dança encontra um igual,
a razão de existirem por eras e ainda não se cansarem de andar unidas.
(uma homenagam aos meu primos irmãos Jaime Akans e Ronmarckes)


Véus Ancestrais

Dos mistérios do oriente és
a felicidade após a tempestade de areia,
és como a estrela única que guia a caravana,
se parece com a voz do vento que anuncia o novo passo,
és a lua que refletida no oásis hipnotiza,
a espada da guerreira ancestral,
a força da dança do tempo,
o sonho que faz o beduíno retornar,
a sempre sacerdotisa da Deusa amada,
a mulher forte e única que é perdida e encontrada
nos véus da história de muitas histórias...
És tu com a força de ontem e sempre
pelos desertos e mares de toda a existência.

(para a muito mais que amiga, Rania)

E ainda a bailar...

O encanto da Dança Cigana é que por mais que seja a mesma música, a forma de bailar sempre será diferente, seremos movidos por energias e sentimentos diferentes, mas algo sempre prevalece, o amor pela dança, a vontade de sagrar cada passo pensando no sagrado que compõe a natureza e cada ser humano...


Sumaya Sarran (direitos reservados)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Como é ser Cigana no século XXI ?

Resolvi começar o ano respondendo esta pergunta de Camila Fernandes, talentosa escritora e ilustradora, a quem tenho o prazer de ter conhecido nesse ano já passado, foi num final de noite e boa conversa que ela me lançou este questionamento. Foi difícil responder, quantas vezes pensei nisso e preferi esquecer, mas dessa vez o pensamento foi longe ...

Há pouco tempo atrás, mais ou menos 1988, a definição de Cigano no Dicionário Aurélio, era: ladrão, velhaco, trapaceiro; entre outros nada lisonjeiros.

No livro Os Ciganos no Brasil e Cancioneiro dos Ciganos de Mello Moraes Filho de 1981 pela Editora da Universidade de São Paulo com primeira edição em 1886, encontramos definições que antecederam a brasileira como:

Ciganos - Raça de gente vagabunda, que diz que vem do Egito, e pretende conhecer o futuro pelas raias ou linhas das mãos; deste embuste vive...“ – Antonio de Morais e Silva 1417
Ciganos – Nome que o vulgo dá a uns homens vagabundos e embusteiros, que se fingem naturais do Egito e obrigados a peregrinar pelo mundo, sem assento nem domicílio permanente, como descendentes dos que não quiseram agasalhar o Divino Infante quando a Virgem Santíssima e São José peregrinavam com ele pelo Egito. - D. Raphael Bluteau

Se oficialmente os ciganos eram assim definidos, imagine como era seu dia-a-dia, a rotina de preconceitos e a desistência paulatina de si mesmo diante de sociedades intolerantes, como manter costumes e tradições durante perseguições e sofrimento? Por vezes foi melhor desistir e seguir o ritmo do mais forte para se manter vivo, não julgueis, pois o tempo é mais leve para as boas histórias, alguns descendentes somente os são hoje, porque os primeiros tiveram de abaixar a cabeça para continuar a vida e levar em frente o mínimo que pôde da história de seu povo, outros conseguiram seguir unidos em seus grupos e fugir das grandes perseguições, inclusive da Inquisição, e a rotina também foi difícil, desafiadora.

É no dia-a-dia que vemos as diferenças, dificuldades, a validade e o desenvolvimento, o que nos faz fortes ou frágeis por fazer parte de uma cultura milenar; o mundo mudou é verdade, mas a intolerância parece ainda maior, não falo exatamente sobre ciganos, mas sobre um sem número de outros grupos étnicos, se não exposta, velada de maneira hipócrita, ainda alimentando lendas e preconceitos, modos de falar, adjetivos e frases “bem humoradas” sobre o que é diferente, bem, isso já sabemos, a humanidade tem incalculáveis motivos para orgulhar-se e envengonhar-se de si mesma!

No Brasil acontece um fenômeno interessante, muitas pessoas por amor, ilusão ou loucura, dizem-se de origem cigana, por ter lido um livro ou se batizado com um nome cigano. Aí a pessoa passa a ser “cigana” de uma hora para a outra, sem ter idéia do que isso significa, sem perceber ou ter um dia-a-dia que a edifique e identifique dessa forma. Na Europa isso seria uma febre facilmente curada pelas autoridades, na maioria dos países a ojeriza impera, ciganos são expulsos todos os dias e ainda definidos extra-oficialmente como no início desse texto. Há ainda os que teimam em padronizar os ciganos no Brasil, sob um ângulo religioso e limitado. Obviamente não é a visão oficial de certas religiões sobre a ancestralidade cigana, mas de alguns fanáticos praticantes que acreditam e determinam um limitado número de ciganos existentes e influenciadores de todos os ciganos no mundo, mas, sobre isso falamos em outro momento...

Ser cigana no século XXI é enfrentar muitas diferenças e facilidades como todos, lembrar às pessoas que o ser humano é feito de muitas crenças e ações, é múltiplo por excelência e único, então, como cigana, sou esse mesmo ser humano, simplesmente sabendo de onde vim e buscando meios e vitórias para continuar o meu caminho. Me orgulho dessa cultura e sei o quanto dela perdeu-se, vou seguindo, como os que me sucederam, fazendo o que posso para manter vivo o que acredito, levando a arte ancestral da dança por onde vou.
São nos passos da dança e da vida que descobrimos o significado de ser cigana, neste espaço compartilho um pouco da caminhada do meu povo, da sua arte e força que faz seguir em frente sempre...