quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Como é ser Cigana no século XXI ?

Resolvi começar o ano respondendo esta pergunta de Camila Fernandes, talentosa escritora e ilustradora, a quem tenho o prazer de ter conhecido nesse ano já passado, foi num final de noite e boa conversa que ela me lançou este questionamento. Foi difícil responder, quantas vezes pensei nisso e preferi esquecer, mas dessa vez o pensamento foi longe ...

Há pouco tempo atrás, mais ou menos 1988, a definição de Cigano no Dicionário Aurélio, era: ladrão, velhaco, trapaceiro; entre outros nada lisonjeiros.

No livro Os Ciganos no Brasil e Cancioneiro dos Ciganos de Mello Moraes Filho de 1981 pela Editora da Universidade de São Paulo com primeira edição em 1886, encontramos definições que antecederam a brasileira como:

Ciganos - Raça de gente vagabunda, que diz que vem do Egito, e pretende conhecer o futuro pelas raias ou linhas das mãos; deste embuste vive...“ – Antonio de Morais e Silva 1417
Ciganos – Nome que o vulgo dá a uns homens vagabundos e embusteiros, que se fingem naturais do Egito e obrigados a peregrinar pelo mundo, sem assento nem domicílio permanente, como descendentes dos que não quiseram agasalhar o Divino Infante quando a Virgem Santíssima e São José peregrinavam com ele pelo Egito. - D. Raphael Bluteau

Se oficialmente os ciganos eram assim definidos, imagine como era seu dia-a-dia, a rotina de preconceitos e a desistência paulatina de si mesmo diante de sociedades intolerantes, como manter costumes e tradições durante perseguições e sofrimento? Por vezes foi melhor desistir e seguir o ritmo do mais forte para se manter vivo, não julgueis, pois o tempo é mais leve para as boas histórias, alguns descendentes somente os são hoje, porque os primeiros tiveram de abaixar a cabeça para continuar a vida e levar em frente o mínimo que pôde da história de seu povo, outros conseguiram seguir unidos em seus grupos e fugir das grandes perseguições, inclusive da Inquisição, e a rotina também foi difícil, desafiadora.

É no dia-a-dia que vemos as diferenças, dificuldades, a validade e o desenvolvimento, o que nos faz fortes ou frágeis por fazer parte de uma cultura milenar; o mundo mudou é verdade, mas a intolerância parece ainda maior, não falo exatamente sobre ciganos, mas sobre um sem número de outros grupos étnicos, se não exposta, velada de maneira hipócrita, ainda alimentando lendas e preconceitos, modos de falar, adjetivos e frases “bem humoradas” sobre o que é diferente, bem, isso já sabemos, a humanidade tem incalculáveis motivos para orgulhar-se e envengonhar-se de si mesma!

No Brasil acontece um fenômeno interessante, muitas pessoas por amor, ilusão ou loucura, dizem-se de origem cigana, por ter lido um livro ou se batizado com um nome cigano. Aí a pessoa passa a ser “cigana” de uma hora para a outra, sem ter idéia do que isso significa, sem perceber ou ter um dia-a-dia que a edifique e identifique dessa forma. Na Europa isso seria uma febre facilmente curada pelas autoridades, na maioria dos países a ojeriza impera, ciganos são expulsos todos os dias e ainda definidos extra-oficialmente como no início desse texto. Há ainda os que teimam em padronizar os ciganos no Brasil, sob um ângulo religioso e limitado. Obviamente não é a visão oficial de certas religiões sobre a ancestralidade cigana, mas de alguns fanáticos praticantes que acreditam e determinam um limitado número de ciganos existentes e influenciadores de todos os ciganos no mundo, mas, sobre isso falamos em outro momento...

Ser cigana no século XXI é enfrentar muitas diferenças e facilidades como todos, lembrar às pessoas que o ser humano é feito de muitas crenças e ações, é múltiplo por excelência e único, então, como cigana, sou esse mesmo ser humano, simplesmente sabendo de onde vim e buscando meios e vitórias para continuar o meu caminho. Me orgulho dessa cultura e sei o quanto dela perdeu-se, vou seguindo, como os que me sucederam, fazendo o que posso para manter vivo o que acredito, levando a arte ancestral da dança por onde vou.

3 comentários:

Nassih Sari disse...

Finalmente vc está de volta! Adorei seu post!
Bjus

Eric disse...

Sim!! Vim dar força também.
Escreva muito!
Baci!

MilaF disse...

Acho que o diferente tem sua sina: sempre será visto pela massa com desconfiança e, por alguns afortunados, com fascínio.
Legal sua resposta, Su!
Continue a escrever! E a bailar!

São nos passos da dança e da vida que descobrimos o significado de ser cigana, neste espaço compartilho um pouco da caminhada do meu povo, da sua arte e força que faz seguir em frente sempre...